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6 de jun. de 2009

Como será o amanhã?

*Ney Lopes

Tonico e Tinoco cantam em música sertaneja: “falar com quem não escuta, não adianta gritar”.

Há anos repito que o maior “trunfo” do RN para a geração de empregos e oportunidades é a exploração econômica da sua proximidade geográfica da África e a Europa, com a implantação de um “pólo exportador e turístico” pioneiro na América Latina e o Caribe. Coisa simples, óbvia e que não necessita descobrir a roda de novo para enxergá-la.

Todavia, teima-se em não tirar proveito desse privilégio, dado por Deus. O caminho natural seria a instalação, ao lado do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, de uma área de livre comércio (ou o nome que tenha), com a geração em médio prazo de 50 mil empregos, diretos e indiretos, além de oportunidades empresariais diversificadas.

Nada mais natural do que políticos defenderem “bandeiras”. JK teve Brasília; Aluízio Alves a energia de Paulo Afonso; Wilma a ponte da Redinha; Agripino a via costeira; Garibaldi o programa das águas; Lula o “bolsa família”.

No exercício de seis mandatos de deputado federal sempre defendi – e continuo a defender - uma área de livre comércio no “Grande Natal”, pela sua condição natural de fronteira aérea e marítima. O exemplo mundial demonstra que esta seria a forma objetiva de viabilizar economicamente o futuro aeroporto. Por que nada se fez até hoje e nem se fala para o futuro? Será por que não há desembolso de dinheiro público em curto prazo, mas ao contrário, a iniciativa privada implantaria as unidades de produção para exportação? Será que no RN só há interesse com “retornos imediatos”, como a Copa em 2014?

A propósito, Natal sediará a Copa, única e exclusivamente, pela sua posição geográfica, reconhecida desde 1570, quando o rei D. João III entregou a capitania hereditária do Rio Grande do Norte a João de Barros, para que ele montasse infra-estrutura de defesa contra as invasões francesas, em razão de o local ser o mais próximo da África e da Europa. Os “aliados” na II Guerra, temerosos de invasões aéreas no Panamá e nos EEUU, montaram no “grande Natal” o chamado Trampolim da Vitória, situado no ponto mais avançado do Atlântico Sul, em relação aos europeus e africanos.

Até o noticiário do trágico acidente aéreo do último domingo destaca na imprensa mundial a posição geográfica estratégica da nossa capital, de onde partem os grupos de resgate.

Festeja-se a presença de Natal na “copa de 2014”. É realmente um fato salutar. Nada a opor. Dará visibilidade internacional ao nosso Estado. É necessário, porém, colher frutos de tudo isto. Até o momento, só se fala em “parcerias privadas”, gastar dinheiro com demolições de bens públicos, valorização imobiliária ao redor do complexo, desapropriações, negócios abundantes de construção civil e busca de dinheiro orçamentário, até no PAC, que, em princípio, seria um plano para ajudar pessoas de baixa renda.

Será que a iniciativa privada bancará integralmente a festa de 2014? Ou, em médio prazo ela dirá que não tem mais recursos, obrigando o poder público - diante do fato consumado – a gastar dinheiro orçamentário? Como serão feitos os contratos das parcerias “públicos privadas”? Haverá o cuidado de obrigar a empresa que receber qualquer tipo de favor público (inclusive isenção) restituir em dobro, caso não execute a obra, sob pena do crime de apropriação indébita dos seus sócios?

E os empregos tão falados? Serão estáveis, ou transitórios, apenas durante as obras programadas? Chega a hora de lembrar a advertência do samba de Simone: “como será o amanhã; responda quem puder”.

Como ficarão o RN e Natal, depois da Copa de 2014? Por que não aproveitar a decisão da FIFA e criar condições de geração, em médio prazo, de empregos estáveis para os nossos desempregados, com a implantação de uma zona econômica especial no “grande Natal”? Quantas novas oportunidades surgirão, permitindo o crescimento do comércio, dos serviços e da infra-estrutura urbana (educação, saúde, segurança pública)? Como evitar que o projeto faraônico de hoje, se transforme amanhã em “elefante branco”? Como as populações das demais regiões do Estado também se beneficiarão da Copa sediada em Natal?

O desafio é evitar que, no futuro, a presença de Natal na Copa de 2014 termine como o sucesso do general grego Pirro, que indagado após uma dura batalha que vencera, declarou preocupado: “mais uma vitória como esta e estou perdido!”.


*É advogado, jornalista e ex-deputado federal

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